Gengivas e hormonas: porque é que sangram na menstruação, na gravidez e na menopausa?
Está a escovar os dentes como sempre. A mesma escova, a mesma pasta, o mesmo cuidado. E, de repente, o lavatório fica com aquele tom rosado que não estava lá na semana passada.
Se isto lhe acontece mais ou menos na mesma altura do mês, durante a gravidez ou numa fase nova da vida, não está a imaginar coisas: as gengivas e as hormonas estão mais ligadas do que a maioria das pessoas imagina.
A parte que raramente se explica é a segunda: perceber que as hormonas têm influência não significa aceitar o sangramento como “coisa de mulher”. É por aqui que esta conversa deve começar, e não acabar.
Conteúdos abordados:
O que fazem as hormonas às gengivas?
As gengivas são tecidos muito irrigados e muito sensíveis ao que se passa à sua volta. Os estrogénios e a progesterona podem influenciar essa irrigação e a forma como o organismo responde à placa bacteriana, a película invisível que se forma sobre os dentes ao longo do dia.
Em certas fases, a mesma quantidade de placa que antes passava despercebida provoca uma reação mais forte: gengivas vermelhas, inchadas, que sangram com facilidade. Não é que de um dia para o outro escove pior. É que os tecidos reagem de forma diferente ao mesmo estímulo.
Isto não quer dizer que as hormonas sejam a causa de tudo. A placa continua a ser o ponto de partida da gengivite, e as hormonas funcionam como um amplificador. Por isso, a resposta raramente é “a culpa é das hormonas” ou “estou a escovar mal”: costuma ser uma combinação, e só uma avaliação de um especialista consegue separar as duas coisas.
Gengivas a sangrar antes da menstruação: é normal?
Algumas mulheres notam, nos dias que antecedem a menstruação, as gengivas mais sensíveis, inchadas ou com tendência para sangrar. Outras nunca sentem nada, e ambas as situações são possíveis. Quando acontece, tende a repetir-se com o ciclo, e daí a sensação de que “volta sempre na mesma altura”. A influência hormonal pode, aliás, começar logo na puberdade.
Mas frequente não quer dizer inofensivo. Se o sangramento desaparece quando a menstruação chega, é um padrão que vale a pena conhecer. Se tem as gengivas a sangrar na menstruação, se aumenta de mês para mês ou se vem acompanhado de mau hálito, deixou de ser só o calendário e precisa de ser visto.
Um truque simples: durante dois ou três ciclos, anote no telemóvel os dias em que as gengivas sangram e quanto tempo dura. Não precisa de mais nada. Esse registo transforma um “acho que é por esta altura” numa informação concreta, que ajuda o médico dentista a perceber o que se passa.
Gengivas e hormonas na gravidez: o que pode mudar?
Há uma ideia que atravessa gerações: “cada filho, um dente”. Não é verdade. O bebé não vai buscar cálcio aos dentes da mãe, porque o cálcio dos dentes não é mobilizado para formar o esqueleto do bebé. O que pode mudar, sim, é o ambiente da boca:
- As gengivas na gravidez podem inchar e sangrar com mais facilidade, uma reação conhecida como gengivite da gravidez;
- Os enjoos podem tornar a escovagem difícil e desagradável;
- Os vómitos expõem os dentes aos ácidos do estômago;
- As mudanças na alimentação, com lanches mais frequentes, podem aumentar o risco de cárie.
Se tiver vómitos, não escove os dentes logo a seguir: o esmalte fica mais vulnerável aos ácidos. Enxague a boca com água e espere pelo menos meia hora antes de escovar.
E não adie a consulta por estar grávida. Os cuidados preventivos e os tratamentos necessários podem ser feitos, com adaptação à situação clínica, e uma dor ou uma infeção não devem esperar pelo parto. Não é por acaso que a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) destaca aqui alguns dos sintomas a que deve estar atenta.
Se quiser desmontar outros mitos, leia dentes fracos depois da gravidez.
Menopausa e boca seca
Precisar de um gole de água para conseguir falar. Sentir a boca pegajosa ao acordar. Evitar o pão ou as bolachas porque custam a engolir. A boca seca na menopausa raramente aparece como queixa principal: instala-se aos poucos, até ao dia em que se repara que se mudaram hábitos por causa dela.
Algumas mulheres referem boca seca, alterações do paladar ou ardor na língua durante e depois da menopausa. Mas nem todo o sintoma novo é hormonal: a medicação (muitos medicamentos de uso comum secam a boca) e outras condições de saúde também contam, por isso convém investigar em vez de assumir.
E porque é que isto importa para os dentes? Porque a saliva é uma defesa: ajuda a engolir, a limpar resíduos e a proteger o esmalte. Com menos saliva, aumenta o risco de cáries e de algumas infeções. Beber pequenos goles de água ao longo do dia e evitar bebidas açucaradas dá conforto, mas não substitui perceber a causa. Se quiser saber mais sobre este assunto, leia menopausa e saúde oral.
Contracetivos, fertilidade e terapêutica hormonal: o que dizer ao dentista
Quando o médico dentista pergunta “que medicação toma?”, a resposta não deve ficar pelos comprimidos que acha que têm que ver com os dentes. Contracetivos hormonais, tratamentos de fertilidade e terapêutica hormonal da menopausa fazem parte da informação clínica relevante para os nossos médicos especialistas.
Isto não quer dizer que causem problemas na boca: a relação depende de cada pessoa e do contexto, e não há motivo para alarme. Quer dizer que, juntando essa informação à história dos sintomas (quando começaram, se mudaram depois de alguma alteração), a avaliação fica mais completa.
Não suspenda nem ajuste uma terapêutica por iniciativa própria. Se houver suspeita de um efeito na boca, como a secura, a decisão é partilhada com quem a prescreveu.
Cuidar melhor não é escovar com mais força
Perante gengivas que sangram, há dois instintos opostos e ambos falham. Há quem escove com mais força, para “limpar melhor”. E há quem evite a zona que sangra, para não a irritar. Nenhum ajuda: o primeiro traumatiza os tecidos, o segundo deixa a placa acumular-se, e a inflamação agrava-se.
O que funciona é menos dramático:
- escovar duas vezes por dia com dentífrico fluoretado e uma escova macia, sem pressão;
- limpar os espaços entre os dentes todos os dias, com fio dentário ou escovilhões do tamanho certo;
- manter a limpeza junto à gengiva mesmo quando sangra, com suavidade, porque é a limpeza regular que costuma fazer o sangramento diminuir;
- rever a técnica numa consulta de higiene oral, onde se escolhem também os instrumentos mais adequados à sua boca.
Quando marcar uma avaliação da saúde oral da mulher?
- “É das hormonas” pode ser o início da conversa, mas não deve ser o fim. Sangramento repetido, inchaço, mau hálito persistente, retração gengival ou dentes a abanar justificam avaliação periodontal, mesmo sem dor.
A saúde oral da mulher acompanha as fases da vida e merece acompanhamento em todas elas. Não é preciso esperar pela dor: as doenças das gengivas podem evoluir sem esse aviso. A avaliação dos tecidos que suportam os dentes pertence à área da periodontologia, e quando predominam a secura ou o ardor podem ser necessárias outras avaliações, orientadas pelos sintomas.
Na próxima consulta, em vez de “tenho as gengivas sensíveis”, experimente dizer desde quando, em que situações acontece, se há um padrão e o que mudou entretanto. Esses pormenores tornam a conversa muito mais útil e ajudam a um melhor diagnóstico por parte dos especialistas.
Se tem notado alterações na boca, traga as suas dúvidas à consulta n’A Clínica Dr. Pedro Mota, em Vila Franca de Xira. Não precisa de chegar com uma explicação: a avaliação existe para a procurar.
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