Bifosfonatos e denosumab: o que o seu dentista precisa de saber
A consulta correu bem. Saiu de lá com uma receita, uma data para a primeira administração e uma recomendação que não esperava: “marque uma consulta no dentista antes de começar”.
Parece fora de sítio, mas tem uma razão. Os bifosfonatos e o denosumab protegem os ossos e são usados na osteoporose e no acompanhamento de alguns cancros, incluindo o da mama. Em casos raros, porém, podem afetar a forma como o osso dos maxilares cicatriza depois de uma intervenção dentária.
Neste artigo sobre bifosfonatos e dentista, explicamos que informação deve levar à consulta e que cuidados devem ser avaliados antes dos tratamentos dentários.
Informe o médico dentista sobre a medicação que toma ou tomou anteriormente. A avaliação deve considerar o medicamento, o motivo da prescrição, a duração do tratamento e os procedimentos dentários previstos.
Neste Outubro Rosa, respondemos às perguntas mais frequentes que nos fazem: qual é o risco, o que convém fazer antes, se pode tratar dentes ou colocar implantes e porque nunca deve parar a medicação por conta própria.
Conteúdos abordados:
O que são e porque é que o dentista entra nesta história?
A osteonecrose dos maxilares é rara, mas grave: uma área do osso fica exposta na boca e cicatriza com dificuldade. O risco depende da dose, da frequência e da duração. Na osteoporose é muito baixo: em geral abaixo de 0,1% com bifosfonatos e entre 0,04% e 0,3% com denosumab. Nos esquemas oncológicos é maior, cerca de 1% nos estudos de maior dimensão, com grande variação.
Receber esta medicação não significa, por si só, que o cancro tenha chegado aos ossos, e o esquema é sempre decidido pela equipa médica.
Osteonecrose dos maxilares: o que é e qual é o risco?
Vamos ao que mais preocupa: a osteonecrose dos maxilares. É uma lesão rara, mas grave, em que uma área do osso fica exposta na boca e cicatriza com dificuldade, por vezes com dor, inchaço ou infeção.
A palavra “rara” tem números. Na osteoporose, as estimativas são muito baixas: em geral abaixo de 0,1% com bifosfonatos e entre 0,04% e 0,3% com denosumab. Nos esquemas usados em oncologia, o risco é maior, cerca de 1% nos estudos de maior dimensão, com grande variação entre estudos. Na prática, a grande maioria das pessoas nunca terá este problema, mas a prevenção pesa mais quando as doses são mais elevadas.
Estes números não dizem o que vai acontecer consigo, e a saúde da boca também influencia o risco. Por isso, a pergunta certa não é “isto vai acontecer-me?”, mas “o que posso fazer para que não aconteça?”.
Bifosfonatos e dentista: cuidados antes de iniciar a medicação
A resposta mais consensual das orientações internacionais é simples: fazer uma avaliação dentária antes de começar, sobretudo quando o tratamento é oncológico, com exame clínico e radiografias. O objetivo é chegar ao início do tratamento com a boca em ordem:
- Identificar problemas que convém tratar antes de começar, sempre que o estado de saúde o permita;
- Perceber que dentes podem ser mantidos e quais não têm bom prognóstico;
- Reduzir a probabilidade de precisar de cirurgia ou extrações durante o tratamento;
- Planear, com a equipa médica, o tempo de cicatrização quando é necessária cirurgia.
Isto não significa extrair dentes por precaução. Trata-se o que precisa de tratamento e extrai-se apenas o que não tem bom prognóstico. E há uma regra de ouro: nunca se adia um tratamento oncológico por iniciativa própria para resolver primeiro os assuntos dentários. Os prazos são definidos pelas equipas que acompanham o caso, em articulação com o seu médico dentista.
Se o tratamento já começou, não é tarde. Quanto mais cedo a boca for avaliada, melhor, e a manutenção regular, com consultas de vigilância e higiene oral profissional, continua a fazer a diferença.
Posso fazer extrações ou implantes?
Bifosfonatos e extração dentária: cuidados necessários
Posso continuar a ir ao dentista? Sim, e deve. As consultas de vigilância e as limpezas continuam a ser recomendadas, e muitos tratamentos restauradores mantêm-se. Deixar de cuidar da boca não elimina o risco: só o torna mais difícil de gerir quando surge um problema.
Quando falamos de bifosfonatos e extração dentária, importa perceber que medicação toma, por que motivo e há quanto tempo, para avaliar os cuidados necessários no seu caso. Quando é preciso intervir no osso, a abordagem é mais conservadora: sempre que possível, tenta-se salvar o dente (por exemplo, com tratamento endodôntico ou mantendo raízes sem infeção). Mas uma infeção ou uma urgência não deve ficar sem resposta por receio. Cabe ao médico dentista avaliar o risco e, quando necessário, articular com a equipa médica ou encaminhar para cirurgia oral.
A relação entre bifosfonatos e implantes dentários não se resume a um «sim» ou «não»: a decisão depende da medicação, do motivo do tratamento e da avaliação clínica.
E os implantes? A resposta depende do tratamento. Em tratamentos oncológicos com doses elevadas, as principais orientações internacionais desaconselham a colocação de implantes enquanto decorrem, salvo avaliação individual por um especialista, em articulação com a oncologia. Na osteoporose, os implantes não estão contraindicados, mas os dados são limitados: o plano é individualizado, com informação clara sobre o risco de osteonecrose (baixo) e o de falha do implante, e com acompanhamento regular.
Ter terminado uma fase do tratamento não é uma autorização automática: o histórico de medicação continua a contar.
Denosumab e dentista: posso suspender a medicação?
É a pergunta mais natural, e a resposta é: não, por iniciativa própria. Parar um medicamento “por precaução” parece prudente, mas a evidência diz outra coisa.
Os bifosfonatos permanecem no osso durante anos, e não há evidência de que uma pausa antes de um tratamento dentário reduza o risco de osteonecrose. As orientações disponíveis não a recomendam por rotina, e entre os especialistas o tema continua em discussão. Com o denosumab, o problema é outro: parar ou atrasar o tratamento na osteoporose está associado a um risco aumentado de várias fraturas vertebrais, que podem surgir nos primeiros meses.
Por isso, não falte a uma administração nem altere a medicação para a fazer coincidir com uma consulta. Em alguns casos, o médico que prescreve e o médico dentista podem acordar o melhor momento para um procedimento não urgente em relação à próxima administração, mas essa é sempre uma decisão tomada em conjunto.
O que levar à consulta?
Responder “o que está a tomar?” parece fácil, até ao momento em que o tratamento é uma injeção dada no hospital, de seis em seis meses, que não está em nenhuma caixa lá em casa. É a informação que mais facilmente se esquece, e uma das mais importantes.
Leve, se puder:
- o nome do medicamento e a dose;
- a frequência e as datas das administrações;
- a indicação de que já recebeu esta medicação no passado, mesmo que o tratamento tenha terminado, ou de que está previsto começar;
- a lista dos restantes medicamentos e as dúvidas que ainda não conseguiu esclarecer.
Terminar o tratamento não apaga esta informação: nos bifosfonatos, a utilização anterior continua a contar na avaliação do risco.
Que sinais não devem esperar pela próxima consulta?
- Uma ferida que não cicatriza, osso visível na boca, dor ou inchaço persistentes, pus, dentes que abanam sem explicação ou dormência nova devem ser comunicados ao médico dentista e à equipa médica. Não espere pela próxima consulta de rotina.
Estes sinais não confirmam, por si só, uma osteonecrose: precisam de avaliação para perceber a causa e decidir o acompanhamento. Quanto mais cedo forem vistos, mais simples tende a ser a resposta.
No fundo, o objetivo não é escolher entre tratar os ossos e cuidar dos dentes: é planear os dois em conjunto. Neste Outubro Rosa, a boca também merece um lugar no plano. Se vai iniciar, está a receber ou já recebeu bifosfonatos ou denosumab, partilhe essa informação na sua consulta n’A Clínica Dr. Pedro Mota, em Vila Franca de Xira, e traga os registos da medicação.
Este artigo tem finalidade informativa e não substitui uma avaliação clínica individual. Não suspenda nem altere a medicação sem indicação do médico que a prescreveu.
Fontes consultadas:
- SDCEP: Oral Health Management of Patients at Risk of Medication-related Osteonecrosis of the Jaw
- AAOMS: Position Paper on Medication-Related Osteonecrosis of the Jaw, atualização de 2022
- MASCC/ISOO/ASCO: Clinical Practice Guideline sobre osteonecrose dos maxilares relacionada com medicação (2019)
- American Dental Association: Oncology agents and MRONJ
- American Dental Association: Osteoporosis medications and MRONJ
- MHRA: Denosumab 60 mg (Prolia), risco de fraturas vertebrais múltiplas após suspender ou atrasar o tratamento
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